Algumas considerações sobre porque os designers
precisam fazer valer esta máxima.
O Design de Embalagem é uma
especialidade do desenho que integra o portfólio de escritórios e agências
espalhadas pelo Brasil.
Não é incomum os designers se
interessarem por esta atividade e até mesmo se apaixonarem por ela por se
tratar de um tema realmente fascinante por sua riqueza e diversidade.
Desenhar embalagens é considerado
um desafio estimulante que estes profissionais aceitam com entusiasmo quando
descobrem suas enormes possibilidades expressivas.
Tenho me dedicado de forma
intensiva ao design de embalagem desde 1987 quando assumi a direção de design
de uma grande agência especializada nesta atividade. Desde então, tive a
oportunidade de trabalhar com as maiores indústrias de produtos de consumo e
fabricantes de embalagens do país e com elas aprender as complexidades do
negócio.
A indústria sabe bem a diferença
que faz uma boa embalagem e já sentiram na própria carne os efeitos de uma
embalagem ruim.
Os designers por outro lado, tem
pouco conhecimento destas complexidades ou um conhecimento superficial sobre o
setor e por isso acabam não explorando as possibilidades de negócios oferecidas
neste segmento.
Para começar, precisamos saber e
elevar em conta que a indústria de embalagem é um negócio grande e poderoso,
com responsabilidades enormes onde o design se insere de uma maneira muito
desproporcional uma vez que as empresas dos designers são pequenas comparadas
com o tamanho das indústrias com quem se relacionam profissionalmente e para
quem precisam trabalhar.
Este contraste faz com que os
designers que integram a cadeia produtiva de uma embalagem acabem sempre sendo
o elo mais fraco desta cadeia, muito embora seu trabalho e sua contribuição
sejam decisivos tanto para o sucesso da empresa fabricante do produto como da
indústria responsável por sua embalagem.
Quando criamos em 2006 o Comitê
de Design da ABRE Associação Brasileira de Embalagem, com o objetivo de
integrar o design com a indústria de embalagem, descobrimos rapidamente que o
design tem um papel muito mais importante na cadeia do que nós imaginávamos até
então.
Até então o design era
considerado apenas como a atividade que agregava beleza estética ao produto
industrial, não se sabia que ele é na verdade o elemento integrador de todo o
processo de produção de uma embalagem e que, portanto, sua contribuição ao
processo é fundamental.
Para tornar mais clara esta
constatação, temos que fazer um rápido entendimento sobre o funcionamento da
cadeia produtiva e das ações que resultam na embalagem final que encontramos no
ponto de venda, pois ela é o resultado da ação de um sistema complexo e
multidisciplinar onde atuam várias empresas diferentes e profissionais de
diversas especializações.
Tudo começa com o consumidor que
é o senhor do fato econômico e aquele que na verdade faz tudo acontecer.
Conhecer o consumidor, suas
motivações de compra, expectativas, hábitos e atitudes em relação ao produto
são o ponto de partida de todo o processo.
Quem lida com este tipo de
informação e a traz para o projeto é o marketing, que conduz a vida do produto
no mercado ou alguém imbuído desta função nas empresas de consumo. Estes
profissionais transmitem para os designers na forma de um briefing as
informações necessárias para o desenvolvimento do projeto. Nem sempre os
projetos de design acontecem desta forma, mas é assim que funciona nas maioria
das grandes empresas.
Para desenhar a embalagem, além
destas informações iniciais são necessárias uma série informações que vem de
outras áreas da empresa, pois a embalagem precisa rodar na linha de produção e
envase e responder tecnicamente pela proteção e segurança do produto. Isso
obriga os designers a entrar em alguns aspectos técnicos da embalagem pois frequentemente
ela será produzida numa indústria utilizando um tipo de material e uma
tecnologia específica com características que o designer precisa conhecer e
seguirá para uma fábrica onde vai rodar na linha de produção e envase onde
receberá o produto.
Muitas vezes neste processo
entram em ação varias indústrias cujo trabalho se encaixa na fase final do
processo como ocorre, por exemplo, com uma embalagem de shampoo cujo frasco é
soprado numa fábrica, à tampa feita em outra assim como o rótulo que é
produzido numa terceira empresa e tudo isso vai acabar dentro de uma caixa de
papelão fabricada na quarta empresa.
Todos estes componentes da
embalagem final que vamos encontrar nas Gôndolas dos supermercados precisam se
encaixar perfeitamente na linha de produção do produto levando em consideração
os anseios do consumidor, a cadeia de distribuição no varejo, a concorrência, a
proteção que o produto exige, normas de rotulagem e assim por diante...
Quem faz a consolidação de todas estas
informações e requisitos técnicos na arte final, gerando os CDs que serão
distribuídos para as quatro indústrias descritas no exemplo anterior é o
designer.
O designer é o agente integrador
do processo e a qualidade de seu trabalho pode tanto agregar valor ao trabalho
de todo o sistema como puxar para baixo tudo o que foi feito pois uma boa
embalagem agrega valor ao produto valorizando o trabalho de toda a cadeia
produtiva, enquanto que uma embalagem feia ou inexpressiva derruba a percepção
de valor e põe para baixo o trabalho como um todo.
A indústria brasileira de
embalagem vai faturar este ano mais de “40
Bilhões de Reais” e para conseguir isso ela precisa de desenhos, precisa
das artes finais e dos CDs criados e produzidos pelos designers.
Os designers precisam tomar
consciência da importância de seu papel para que possa atuar com mais força na
cadeia e valorizar a contribuição de seu trabalho para o sucesso tanto da
indústria de embalagem como para as empresas fabricantes do bens de consumo.
Um estudo realizado pela ABRE com
os supermercadistas, revelou que na visão destes profissionais do varejo que
conhecem em profundidade os mecanismos de compra no ponto de venda, Embalagem é tudo!”
Eles sabem o que estão dizendo e
reconhecem o papel e a contribuição da embalagem para seu negócio, afinal,
imaginem o que é um supermercado sem embalagens.
Outra pesquisa desta mesma
entidade, desta vez realizada com os consumidores, revelou que eles não separam
a embalagem de seu conteúdo, para o consumidor, “A embalagem e o conteúdo constituem uma única entidade indivisível”.
Isto quer dizer que na visão do
consumidor, a embalagem e o produto são uma coisa só e, portanto, em sua
percepção, não deve ser nada bom para um produto, ter uma embalagem ruim.
Isso tudo demonstra que a
embalagem tem importância real para todos os elos da cadeia e nos leva a
levantar as seguintes questões:
1-
Porque o
design de embalagem no Brasil tem preços tão baixos?
2-
Porque as
empresas pagam tão pouco por um trabalho tão valioso para seu negócio?
Muita gente já tentou responder
estas perguntas e realmente não é fácil obter as respostas, mas é disso que
vamos tratar nesta coluna.
Vamos descobrir os motivos,
apresentar sugestões sobre como podemos aproveitar melhor às oportunidades do
negócio do design e principalmente, vamos manter atualizados os temas
relacionados com design, inovação, tendências, lançamentos e o futuro da
embalagem.
Fabio Mestriner
Especialista
em Inovação e Inteligência de Embalagem
Professor
Coordenador do Núcleo de Estudos da Embalagem ESPM
Coordenador
do Comitê de Estudos Estratégicos da ABRE
Autor dos
livros: Design de Embalagem Curso Avançado e Gestão
Estratégica de Embalagem
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